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Tiro no Pé: O que o erro da Nike na Maratona de Boston ensina sobre posicionamento de marca

  • 7 de mai.
  • 5 min de leitura

Em abril de 2026, a Nike protagonizou um dos casos mais comentados do marketing esportivo do ano. Não por uma campanha genial. Não por um lançamento inovador. Mas por uma placa.

Uma placa simples, colocada na vitrine de sua loja ao longo do percurso da 130ª Maratona de Boston — considerada a maratona mais tradicional e simbólica do mundo — com os seguintes dizeres:

"Runners Welcome. Walkers Tolerated." (Corredores são bem-vindos. Quem caminha… a gente tolera.)

Em poucos dias, a Nike estava no centro de uma crise de comunicação. Críticas nas redes sociais, cobertura negativa na imprensa especializada e um pedido público de desculpas depois. A placa foi removida. A marca admitiu que "errou a mensagem".

Mas o problema foi muito mais profundo do que uma frase mal escolhida.



A Maratona de Boston não é uma corrida qualquer


Antes de falar sobre marketing, é preciso entender o contexto — porque é exatamente aí que a Nike falhou.

A Maratona de Boston não é uma prova comum. Ela é um símbolo. Com 130 anos de história, o evento reúne muito mais do que atletas de elite: há para-atletas em cadeiras de rodas adaptadas, corredores que caminham boa parte do percurso por limitações físicas, pessoas que completam a prova como ato de superação pessoal, sobreviventes de câncer, homenagens a entes queridos, e participantes de todas as idades e condições.

A Maratona de Boston é, em essência, sobre o esforço humano em todas as suas formas.

Posicionar uma placa que "tolera" quem caminha dentro desse contexto não foi apenas um erro de comunicação. Foi uma demonstração de que a marca não entendeu — ou não se importou em entender — quem estava na sua frente.

E em marketing, isso tem um nome: falta de escuta.


O que é posicionamento de marca, afinal?


Posicionamento não é o que você fala sobre si mesmo. É o que as pessoas sentem quando entram em contato com a sua marca.

Quando a Nike diz "Just Do It", ela não está falando apenas sobre tênis. Está dizendo: eu acredito em você. Qualquer que seja o seu limite, vá além.

É uma promessa universal. Inclusiva. Que abarca o atleta olímpico e a pessoa que está tentando completar seus primeiros 5km.

A placa na Maratona de Boston contradisse exatamente essa promessa. Em um único momento, a comunicação da marca entrou em conflito direto com o que ela leva décadas construindo.

Isso é o que chamamos de incoerência de posicionamento — e ela custa caro.


Por que isso foi um tiro no próprio pé


1. O contexto importa tanto quanto a mensagem


Uma frase pode ser poderosa em um ambiente e desastrosa em outro. "Walkers Tolerated" em uma academia de alta performance talvez passasse despercebida. Em uma maratona histórica que celebra a resiliência humana, ela soa como exclusão.

Grandes marcas caem nessa armadilha quando tratam a comunicação como um template: copiam um formato que funcionou em outro lugar e esquecem de adaptar ao contexto específico do momento, do evento e do público presente.

Marketing sem leitura de contexto não é estratégia. É sorte — e a sorte, eventualmente, acaba.


2. Visibilidade sem empatia é risco


Patrocinar um evento do porte da Maratona de Boston gera visibilidade massiva. Mas visibilidade é uma faca de dois gumes: ela amplifica tanto o que você faz certo quanto o que você faz errado.

A Nike investiu recursos para estar presente em um dos eventos mais assistidos do esporte mundial. E o retorno foi uma crise de imagem que ocupou manchetes por dias.

A lição aqui é direta: quanto maior o palco, maior a responsabilidade com cada detalhe da comunicação.


3. Marcas têm memória — e o público também


A reputação de uma marca é construída em anos e destruída em dias. O que torna esse caso ainda mais sensível é que a Nike tem um histórico sólido de campanhas inclusivas e emocionantes — a campanha com Colin Kaepernick, os anúncios com atletas paraolímpicos, as histórias de superação.

Quando uma marca com esse histórico comete um erro de exclusão, a decepção do público é proporcional à expectativa que ela própria criou. As pessoas cobram da Nike um padrão mais alto porque a própria Nike se posicionou nesse padrão.

Isso não é injusto. É a consequência natural de construir uma marca forte.


4. A crise poderia ter sido evitada com um processo simples


Não era preciso uma pesquisa sofisticada para prever o problema. Bastava responder a uma pergunta antes de aprovar a placa:

"Quem vai ler essa mensagem? Em que momento da vida essa pessoa está? Como ela vai se sentir?"

Esse exercício — colocar-se no lugar de quem recebe a comunicação — é a base de qualquer estratégia de marketing bem executada. Chama-se empatia estratégica. E é de graça.

A falha da Nike não foi de criatividade. Foi de processo.


O que marcas de todos os tamanhos podem aprender com isso


Você não precisa ser uma multinacional bilionária para cometer esse tipo de erro. Ele acontece todos os dias, em negócios de todos os portes, quando a comunicação é feita no piloto automático.

Aqui estão três perguntas que todo conteúdo, campanha ou ação de comunicação deveria responder antes de ir ao ar:

→ Para quem estou falando, de verdade? Não o público genérico do seu nicho. A pessoa específica que vai ler isso, assistir isso, sentir isso. Qual é a situação dela agora? O que ela está esperando da sua marca nesse momento?

→ Esse conteúdo está alinhado com o que minha marca promete? Toda marca tem uma promessa central — explícita ou implícita. Antes de publicar qualquer coisa, vale perguntar: isso reforça ou contradiz o que eu defendo?

→ Como essa mensagem vai ser interpretada por quem não é meu cliente ideal? Toda comunicação pública tem leituras múltiplas. O que parece motivador para um grupo pode soar excludente para outro. Antecipar essas leituras é parte do trabalho estratégico.


Posicionamento é consistência, não perfeição


Nenhuma marca está imune a erros. A diferença entre marcas que sobrevivem às crises e marcas que desaparecem está na consistência do posicionamento ao longo do tempo.

A Nike vai se recuperar. Ela tem capital de marca acumulado, história e uma base de consumidores fiel. Mas o episódio da Maratona de Boston vai permanecer como estudo de caso — de como até as maiores marcas do mundo podem tropeçar quando esquecem que marketing não é sobre o que você quer dizer, mas sobre o que o outro vai ouvir.

Posicionamento é a soma de cada ponto de contato da sua marca com o mundo. Cada placa. Cada legenda. Cada post. Cada resposta nos comentários.

Não existe detalhe pequeno quando o que está em jogo é a percepção que as pessoas têm de você.


Conclusão: o erro da Nike é uma aula que você não precisa pagar pra ter


O episódio da Maratona de Boston não foi um acidente. Foi o resultado de um processo que falhou em algum ponto — seja na aprovação criativa, na falta de briefing contextual ou na ausência de um olhar crítico antes de executar.

E a boa notícia é que esse processo pode ser corrigido. Com método. Com empatia. Com a disposição de fazer as perguntas certas antes de agir.

É exatamente isso que diferencia marketing estratégico de comunicação no improviso.

A Nike errou. Mas o erro deles pode ser o seu acerto — se você souber o que aprender com ele.


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